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👉🚔⚖👽☠🚨💵💰💸🐭🐁🐀Flávio Bolsonaro ” rachadinha”. Como o dinheiro do Banco Master racha o mito bolsonarista

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Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desmoronam a fantasia de cruzada moral, ao revelar vínculos do clã Bolsonaro com o banqueiro mais tóxico do Brasil

Orlando Calheiros

https://www.intercept.com.br/2026/05/17/banco-master-desmorona-mito-bolsonarista/


Em seus textos, o filósofo francês Clément Rosset costumava ressaltar o aspecto particularmente cruel da realidade.

Cabe ao leitor e leitora ter em mente que Rosset fazia isso mirando não o sentido sádico ou moral da palavra “cruel”, mas o aspecto bruto e incontornável que a própria ideia de realidade carrega consigo. 

Imagine algo que simplesmente “é”; algo que, independentemente da nossa vontade, jamais poderá ser outra coisa que si mesmo, sem sentido oculto, sem justiça superior ou qualquer possibilidade de compensação mística. 

Essa é a realidade em seu aspecto mais cru – cruel. É aterrorizante pensar nisso, especialmente porque a realidade vive à espreita, sempre em busca de uma oportunidade para se fazer presente em nossas vidas, ameaçando nossas fantasias reconfortantes, nossos mitos apaziguadores.

Ameaçando as casinhas imaginárias que criamos para nos proteger, justamente, dos fatos que insistem em continuamente desabar sobre nossas cabeças. 

Imagem do longa "Dark Horse"sobre a vida de Jair Bolsonaro que teria sido bancado pelo Banco Master - Reprodução

E por isso mesmo, quanto mais duros são os fatos, quanto maior a sua “crueldade”, maiores serão os esforços imaginativos e fabulatórios necessários para contê-los, para lhes emprestar algum sentido ou até mesmo para, no limite, negá-los. 

Tarefa hercúlea para impedir que a verdade atinja o eleitorado

E é exatamente isso que observamos após a divulgação dos áudios que mostram que, a despeito do que dizia Flávio Bolsonaro, ele e o banqueiro Daniel Vorcaro não apenas se conheciam, como compartilhavam intimidades, com direito a declarações de lealdade, e – digamos assim para evitar processos – “interesses de investimento”. 

Desde a divulgação dos áudios, a direita e a extrema direita se lançaram numa tarefa hercúlea para criar um verdadeiro castelo fantasmagórico que, imaginam desesperadamente, seja capaz de impedir que a crua (cruel) verdade caia sobre o eleitorado. 

E, até o momento, um castelo de areia literal seria mais eficaz nessa tarefa.

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Pois o fato, além de grave (cruel) em si mesmo, não surge  de forma isolada; soma-se a outros que, no passado, foram incapazes de transpor os muros da fantasia direitista.

Mas que agora, reforçados pela intimidade de Flávio e Vorcaro, ganham novo fôlego e ameaçam o novo projeto de poder da família Bolsonaro. 

Suspeitas que há muito orbitavam o próprio filme “Dark Horse”. A começar pelo orçamento da produção: 24 milhões de dólares, o que faria dele o filme mais caro da história do cinema brasileiro.

Um número ainda mais estranho diante do que foi apresentado até agora: apesar do elenco internacional e da campanha grandiloquente, nada visto até o momento parece justificar um investimento dessa magnitude.

Muito pelo contrário. As filmagens no Brasil foram atravessadas por denúncias de atrasos e calotes, cachês muito abaixo do padrão de mercado, comida estragada e até relatos de agressão física.

O próprio Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo acionou o Ministério do Trabalho diante da quantidade de denúncias acumuladas.

E o resultado de toda essa epopeia milionária?

Até agora, um “teaser-trailer” composto basicamente por imagens de bastidores e takes inacabados, todos com uma inegável aparência amadora, e embalados ao som de Survivor, do grupo Destiny’s Child.

Há, porém, um pequeno e delicioso detalhe final: a música teria sido utilizada sem autorização. Representantes jurídicos da cantora Beyoncé chegaram a tomar medidas legais para retirar o material do ar.

O que nos leva a uma pergunta crucial: como uma produção que afirma ter mobilizado milhares de dólares de empresários aparentemente não conseguiu pagar nem pelos direitos da própria trilha sonora? Estranho, no mínimo.

Tão estranho quanto o fato de uma ONG presidida pela produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama, ter recebido mais de 100 milhões de reais da gestão de Ricardo Nunes para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo, conforme denúncia do Intercept. E tudo isso apesar de a entidade não possuir histórico relevante na área de telecomunicações e dos pagamentos terem ocorrido antes mesmo da entrega final do serviço.

E a história não termina aí. A mesma Karina também aparece ligada a outra ONG que teria recebido ao menos 2,6 milhões de reais em emendas parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon.

Como se denúncias dessa magnitude já não fossem suficientemente graves por conta própria, soma-se agora uma acusação ainda mais explosiva: a de que o filme teria sido financiado com dinheiro ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Um dinheiro que, ao contrário da narrativa repetida por Flávio Bolsonaro e seus aliados, não seria simplesmente “financiamento privado”, mas recursos que, segundo investigações da própria Polícia Federal, teriam origem em operações financeiras fraudulentas.

Propaganda política

E aqui pesa um elemento ainda mais inquietante: “Dark Horse”, como sugerem os trechos do roteiro e as imagens vazadas, é antes de tudo uma propaganda política.

Uma obra inteiramente comprometida com a reescrita do passado e a reorganização da memória histórica para transformar Jair Bolsonaro e seus aliados em figuras não apenas heroicas, mas quase messiânicas.

Enquanto isso, do outro lado, seus adversários políticos surgem reduzidos a caricaturas pueris: demônios irascíveis, “marxistas drogados”, criminosos e terroristas. 

Menos um filme do que uma cosmologia moral rudimentar, onde a política abandona qualquer pretensão de realidade para assumir a forma de guerra santa audiovisual. 

E talvez seja justamente aqui que a realidade, em seu aspecto mais cruel, volte a bater à porta.

Pois toda essa mitologia construída por “Dark Horse” – esse esforço quase litúrgico para transformar Jair Bolsonaro e seus aliados em paladinos incorruptíveis de uma cruzada moral contra o “sistema” –  começa a desmoronar no instante em que o dinheiro entra em cena. 

O dinheiro é a própria realidade. 

E quando olhamos para ela, percebemos o que existe por trás da fantasia, da estética messiânica, dos discursos sobre patriotismo, Deus, família e liberdade.

Aquilo que, justamente, o clã Bolsonaro jurou destruir: relações promíscuas com empresários, banqueiros e operadores políticos, esquemas nebulosos, verbas públicas suspeitas e figuras constantemente orbitadas por denúncias graves.

E talvez esse fosse o verdadeiro ponto de Rosset: a realidade é cruel porque ela sempre retorna.

Não importa quantos filmes sejam produzidos, quantos mártires sejam fabricados ou quantas guerras morais sejam encenadas. Em algum momento o real se faz presente. O dinheiro aparece. Os contratos aparecem. Os áudios aparecem. Os banqueiros aparecem.

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